Iniciativa foi bem acolhida pela população

Painho recebeu evento cultural, da autoria do conterrâneo Jorge Romão (c/vídeo)

11-09-2018
Painho recebeu evento cultural, da autoria do conterrâneo Jorge Romão (c/vídeo)
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A localidade do Painho recebeu, recentemente, uma iniciativa cultural invulgar, reunindo a totalidade da obra do artista conterrâneo Jorge Romão. A exposição “Ímpetos” contou com mais de 60 quadros e com visitantes de dentro e fora do Concelho. Aproveitando o ensejo, o autor voltou a expor, na sua aldeia-natal, a mostra escultórica “A Caixa”, projeto único no mundo, entre outros trabalhos seus.

“A Caixa”: 10 anos da vigilância eletrónica em Portugal

 

A Caixa surgiu em 2012, ano em que se assinalaram os 10 anos da entrada em vigor da vigilância eletrónica em Portugal. «Houve um seminário alusivo à data e eu propus-me fazer esta coleção, com base em histórias reais, que aconteceram com pessoas que estiveram sujeitas a vigilância eletrónica. «São 10 anos, são 10 caixas, são 10 histórias, são 10 fragmentos de vida», explica Jorge Romão.

 

Os materiais são todos recicláveis e apanhados nas ruas de Lisboa, nomeadamente de Alfama e da Graça (onde mora o autor). «Também tive a sorte de, na altura, ter havido uma greve da recolha do lixo durante quatro dias, o que para mim foi um luxo», conta. «Outros materiais foram cedidos por colegas minhas, tais como brincos, pulseiras, travessas, que eu desmontei e com os quais cobri algumas das caixas», diz. «Comprei uma ou outra peça, mas a grande maioria é fruto de reciclagem».

 

Jorge Romão é técnico superior de reinserção social na Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e integra os Serviços de Vigilância Eletrónica desde 2001. Desde 2004, está a coordenar a equipa de Vigilância Eletrónica de Lisboa.

 

O projeto “A Caixa” não é, porém, uma coleção institucional, mas sim particular, e não está para venda.

 

Segundo revela, «em 2012, esse equipamento deixou de ser utilizado e a empresa ofereceu-mo, porque o restante foi incinerado. Quando esteve exposto nesse ano, eu comprometi-me a manter a coleção em Portugal. Isto porque, na altura, houve algumas ofertas, e ofereceram-me até bastante dinheiro por ela, mas não aceitei», afirma.

 

«Celebrei uma espécie de compromisso de que o Estado português teria sempre preferência, caso um dia houvesse algum país interessado na coleção, uma vez que a coleção é única no mundo, não havendo nenhuma feita a partir deste material, e nem será possível ser reproduzida, porque este material já não existe», acrescenta.

 

“A Caixa” estreou-se em novembro de 2012, na Faculdade de Direito, e esteve depois cerca de quatro meses no Ministério da Justiça. Já passou pela Junta de Freguesia dos Anjos, em Lisboa, também durante cerca de cinco meses. «Esteve aqui, no Painho, em 2016 mas incompleta, e agora fiz questão de a trazer completa, por ocasião desta exposição de pintura», relata. Em princípio, para o ano, há projetos para ser novamente exposta em Lisboa, e não sei até se não fará uma digressão internacional, pois já tive algumas propostas nesse sentido», revela.

 

“Ímpetos”: cerca de 60 quadros em 6 meses

 

A exposição “Ímpetos” chega ao Painho (de 12 a 19 de agosto) depois de ter passado por Lisboa (Galeria Arte Graça), de 13 a 29 de julho. «Recebi muitos apelos, das pessoas do Painho que não podiam deslocar-se a Lisboa, para trazer cá a exposição. Eu senti que tinha o dever de o fazer, e fiz».

 

A exposição reúne 60 telas, sendo que, em Lisboa, Jorge apenas expusera 49 trabalhos, em virtude de o espaço ser mais pequeno. «Aqui, como tive possibilidade de expor nos dois pisos da associação, acabei por trazer algumas obras que nunca haviam sido expostas».

 

À exceção de três, que foram pintados no dia 26 dezembro de 2017, todos os restantes 57 foram pintados entre janeiro e meados de junho de 2018.

 

Utilizando acrílico sobre tela, quiçá mais de 80 por cento dos quadros foram executados com espátula e com outros objetos que Jorge adaptou ou inventou, estando os pincéis fora de utilização, no seu caso.

 

Inicialmente concebidos para si e para «controlar e satisfazer o ímpeto de pintar», a publicação dos seus trabalhos nas redes sociais trouxe-lhe o incentivo para expor. «Depois da exposição montada, comecei a receber apelos de pessoas que queriam ficar com os quadros. Então, não resisti», conta.

 

O Painho está sempre retratado nos seus trabalhos. «Não só nos quadros que evocam ambientes rurais, mas em todos eles, porque eu só pinto de memória, e as minhas memórias afetivas principais são aqui do Painho. Embora viva há muitos anos em Lisboa, quando pinto, mesmo a paisagem urbana tem toques do Painho, sempre, sempre», salienta. «É uma ligação quase visceral que eu tenho, e tenho todo o prazer nisso».

 

Segundo o autor, levar uma mostra desta dimensão a uma aldeia como o Painho foi considerado, por alguns meios de comunicação, o maior acontecimento cultural da zona Oeste.

 

Formado em Filosofia, Jorge é autodidata em matéria de artes plásticas, ainda que desde a infância revelasse apetência para a arte em geral. «Eu gosto de criar, gosto de romper com o quotidiano», afirma.

 

Sem ter um tema de base, a sua criação é sempre um trabalho intuitivo. «Quando começo uma tela, nunca sei o que vai ser dela, e à medida que vou pintando, e vou espalhando as tintas, são-me oferecidas evocações que remetem para um ambiente mais rural, mais urbano ou místico; só nessa fase sinto que fui eu que entrei no quadro», diz. «E depois, conforme as formas que vão surgindo, vou recorrendo às minhas memórias e vou pintando aquilo que, de facto, sinto. Mas não há ideias ou técnicas preconcebidas, é tudo muito espontâneo», ressalva.

 

Dado a mostra “Ímpetos” se ter estendido aos dois pisos da associação painhense, surge oportunidade de incluir também (além do projeto “A Caixa”) a coleção “Retrospetiva”, rol de trabalhos elaborados por Jorge Romão nos últimos 30 anos, onde constam obras suas baseadas em colagens realizadas em 1995. «Fui pedir obras mais antigas, que tinha espalhadas por amigos e que haviam sido oferecidas em aniversários e no Natal», conta. «Consegui ter aqui, também, um altar que ofereci à igreja do Painho, em 2016, e um quadro que ofereci à escola, em 2017».

 

A escrita: outra forma de expressão

 

A escrita começou como as artes anteriormente descritas: naturalmente e sem objetivo predefinido. «Em 2015, estava a tentar escrever uns textos sobre memórias de família, para oferecer aos meus familiares no Natal. Comecei a fazer um caderninho que depois passei a computador, reunindo uma série de textos interessantes», refere. «Entretanto, mostrei a várias pessoas, que destacaram a qualidade do trabalho e me incitaram a alargar o seu âmbito. Comecei, então, a recolher histórias e testemunhos, vindo ao Painho falar com as pessoas», adianta. «Fui recolhendo esses testemunhos, o que, aliado às minhas memórias de infância, resultou no livro Quando os Ciprestes Davam Laranjas – Memórias do Painho, uma edição de 2016, pela Chiado Editora.

 

Avança o autor que o livro continua à venda, numa edição praticamente esgotada. «A editora deverá fazer uma reedição ou segunda edição. Os que trouxe para aqui foram vendidos no dia da inauguração, tendo as receitas sido oferecidas à comissão de festas do Painho», afirma.

 

A vontade de voltar a pintar

 

No rescaldo da iniciativa realizada no Painho, Jorge Romão diz ter valido a pena e faz um balanço positivo no que toca aos visitantes, onde não faltou a população local, que lhe mostrou gratidão por ter trazido a mostra até si. Mas o artista arrisca dizer que, no dia inaugural, teve mais gente de fora da localidade, nomeadamente do Cadaval, Caldas da Rainha, Nazaré, Leiria, Coimbra e Lisboa. «Para minha surpresa, mesmo durante a semana, veio muita gente de fora. É gratificante saber que a minha obra é reconhecida não apenas no Painho mas noutros sítios», sublinha.

 

Jorge manifesta-se grato às pessoas que sempre acreditaram em si, agradecendo ainda o apoio concedido pelas seguintes entidades: Junta de Freguesia do Painho e Figueiros, Comissão de Festas, A.D.C.R. do Painho e Câmara Municipal do Cadaval.

 

Nos últimos dias da exposição, Jorge Romão manifestava-se «mortinho por continuar com a pintura». «Estou desejoso de desmontar esta exposição e ir para casa, na Graça, onde estou habituado a pintar, em cima da minha mesa de trabalho. Estou mortinho por pegar nas espátulas e espalhar tinta nas telas e criar novas obras».

 

Na ocasião, o autor revelava ter já uma exposição marcada para Lisboa (também na Galeria Arte Graça), a acontecer de 15 março a 7 de abril. «Neste momento, não tenho quadro nenhum para expor, mas isso não me assusta porque, até lá, hei de expor para aquela e para outras exposições que hão de vir».

 

Fonte: SCRP | CMC



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