Ricardo Fonseca tem por vocação "semear emoções"

“Escrita Terapêutica” foi tema de palestra na Biblioteca Municipal

13-12-2018
“Escrita Terapêutica” foi tema de palestra na Biblioteca Municipal
Ricardo Fonseca na companhia da vice-presidente Fátima Paz [+] Fotos
“Escrita Terapêutica” foi o ponto de partida do encontro, promovido pela Biblioteca Municipal no dia 9, que contou com a presença do enfermeiro, escritor e terapeuta Ricardo Fonseca. A sessão abordou a escrita como ferramenta de gestão emocional e contemplou ainda apresentação do livro “O Semeador de Emoções”.

«Há quanto tempo não escrevem uma carta ou um postal a alguém?» - foi este o mote lançado por Ricardo Fonseca ao início do encontro, perante uma plateia atenta, maioritariamente feminina.

 

«Eu, ao colocar numa carta aquilo que sinto, aquilo que eu estou a viver, e de que forma é que aquilo que eu sinto me está a influenciar, isso já é terapia através da escrita», explica o terapeuta, que diz escrever sobre as próprias emoções desde os dez anos de idade.

 

O também enfermeiro e escritor iniciava, assim, a abordagem das “cartas emocionais ou terapêuticas”, um dos exercícios (e autoexercícios) utilizados, por si, no âmbito da escrita terapêutica.

 

«Quando é uma carta em que estou a despedir-me de alguém, eu escrevo a carta e depois queimo, não guardo. Aliás, guardo durante sete dias e depois queimo», refere, explicando que este simbólico gesto não significa esquecer, mas antes procurar resolver interiormente. «Sou eu que preciso lidar com aquilo e fechar aquele ciclo, não é para a pessoa ler. Esse tipo de cartas, eu costumo queimar. Ao mesmo tempo, há cartas que eu entrego mesmo. Porque é importante a pessoa saber o que o outro está a sentir. Porém, sempre com a regra de nunca esperar que o outro me responda», ressalva o orador, explicando que o envio proporciona também terapia ao outro, através da leitura da carta.

 

A escrita terapêutica nasceu, para si, há alguns anos, a partir do feedback que ia tendo das pessoas que liam o que escrevia. «Eu escrevo muito sobre as minhas experiências de vida, como enfermeiro, como ser humano, como voluntário numa associação e como pessoa a viver com dor crónica. Tudo aquilo que eu acho que pode vir a influenciar alguém a olhar para as suas emoções, eu escrevo», salienta. O intuito, explica, é o de levar as pessoas a se questionarem o que é que sentem e, a seguir, o que é que fazem com o que estão a sentir.

 

«Se estou triste, acolher essa tristeza como uma emoção que faz parte de nós. Se sinto raiva ou rancor, ou me zango com alguém, então porque não escrever sobre isso? E ao mesmo tempo, se eu gosto de alguém, porque é que não hei de escrever a essa pessoa o quanto gosto dela?», questiona o terapeuta.

 

Ricardo esclarece que a escrita terapêutica não pretende substituir a oralidade e os encontros presenciais, mas é, muitas vezes, uma preparação para os mesmos.

 

«A carta do perdão, que pratico nos meus workshops, é um exercício terapêutico através da escrita, de analisar uma situação que levou a que eu me tivesse separado ou zangado com alguém. Serve ainda para induzir o outro a fazer o mesmo processo de reflexão e, ao mesmo tempo, dizer tudo aquilo que eu sinto e de que forma eu estou a viver aquele processo», relata o “especialista” de emoções.

 

«Essas cartas permitem-me analisar por escrito aquilo que eu vivi», diz. E sabendo que o ser humano tende a guardar e a acumular emoções, a escrita terapêutica vai ajudar nesse domínio.

 

A escrita terapêutica ao serviço da enfermagem


«Ao mesmo tempo, utilizo a escrita terapêutica enquanto enfermeiro de crianças com doença crónica, onde há um campo emocional muito vasto», explica. «Comecei a utilizá-la com os pais, no sentido de lidarem com a doença do filho», acrescenta, no contexto da sua experiência de cuidados paliativos. «Quando comecei a ver muitos pais a perderem-se deles próprios e como casal, o exercício que comecei a propor a muitas mães (que os homens não expõem tanto o que sentem), era o de se questionarem, numa carta a si próprias, quem é que eu sou e o que quero dizer a mim mesma».

 

Neste âmbito, a escrita terapêutica ajuda, defende Ricardo, a «trazer a nós próprios um bocado de egocentrismo. Mas olharmos para nós próprios de forma terapêutica e não como se fossemos o melhor de todos. Perceber o que é que eu tenho a dizer a mim próprio», nota.

 

«Tenho trabalhado muito, também, a questão dos lutos, as perdas, as despedidas. Isto porque, ao longo destes 12 anos de enfermagem, lidei com muitas crianças que faleceram, além de outras perdas do dia-a-dia. Comecei a ter necessidade de lidar com cada uma das perdas que tive», conta.

 

«Comecei, então, a escrever uma carta a cada criança, depois de ela ter falecido, de modo a eu gerir as minhas emoções», um gesto que permite, observa Ricardo, «agradecer a presença daquela criança na minha vida, por me ter permitido ser seu cuidador».

 

Para o palestrante, todos somos cuidadores de todas as pessoas com quem nos relacionamos, sendo a escrita um grande aliado nesse campo.

 

«O meu conselho, para quem quer começar a viagem [da escrita terapêutica], é escrever grande parte dos textos à mão», sugere. Justifica que, desta forma, «mesmo que o nosso juízo crítico nos diga para apagar, mesmo que risque, vai estar lá [o que escrevemos]».

 

«Temos tendência a florear o que escrevemos porque ninguém pode ver a nossa vulnerabilidade. Porque, depois, temos aquela ideia de que quanto mais baixamos as defesas mais somos atacados. E eu considero o contrário; eu considero que quanto mais altas estão as minhas defesas, mais tentam atacar para as conseguir baixar», defende.

 

A chamada “carta do elogio” é outro exemplo dado por Ricardo Fonseca, nomeadamente a quem tem filhos, no intuito de trabalhar o reforço positivo.

 

Acerca do autor e do seu livro

 

Nascido em Lamego, Ricardo Fonseca é enfermeiro, escritor e terapeuta. Escreveu quatro livros num registo intimista, quase autobiográfico, e participou em diversas coletâneas de poesia e prosa.

 

Através da redação de artigos sobre diversificadas temáticas, colabora com diversas revistas e blogues de desenvolvimento pessoal, saúde e espiritualidade.

 

Acerca do último trabalho do autor, “O Semeador de Emoções”, trata-se de «uma coletânea de textos que falam sobre emoções, sobre a vida, o amor e a convivência com doença crónica, que pretende inspirar os leitores a se tornarem semeadores de emoções da sua vida e da vida do outro», refere o próprio.

 

Mais informação sobre Ricardo Fonseca pode ser obtida no site: www.semearemocoes.com.

 

Fotorreportagem do encontro na página de Facebook da CMC.
Fonte: SCRP | CMC



  • Siga-nos

Topo / Top
  •   Menu acessível
  • Promotor Oeste Portugal
  •   Oeste CIM
  • Co-financiamento Compete
  •   QREN
  •   União Europeia
Powered by Powered by U-LINK
© 2006 - 2019 Município do Cadaval - Todos os Direitos Reservados.